Arte tumular estrusca: síntese de aula

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Curso online sobre  História da Arte, aulas virtuais oferecidas pelo Professor Doutor José Leonardo do Nascimento do Instituto de Artes da Unesp (Universidade do Estado de São Paulo).

1º e 2º aula: A Arte tumular estrusca, síntese de conteúdo.

Método = caminho estabelecido enquanto diálogo entre Grécia e Roma.

Mitologia grega foi latinizada, sendo que apesar de Roma “imitar” a arte grega, estabeleceu também sua especificidade.

O primeiro contacto entre os romanos e os gregos, se estabeleceu através do povo etrusco. Do qual ainda não foi decifrada a escrita, e que se manteve como povo desprezado pelos gregos (apesar do intenso comércio que praticaram) e que tiveram como informantes, os romanos: seus maiores “inimigos”.

Os romanos diziam que os etruscos eram supersticiosos e que também que na sua história familiar, os pais eram desconhecidos. É, praticamente, tudo o que nos foi legado como relato acerca dos estrúrios através dos romanos.

Arnaldo Momigliano, historiador italiano, dizia que nós conhecemos mal os povos que os gregos não conheceram e que, mormente, os poucos relatos que se tem da Etrúria, são indicativos de que era uma sociedade mais libertária, mais igualitária para as mulheres. Que eram alfabetizadas e que tinham um nome.

Nas sociedades romanas, as mulheres herdavam o nome de seus pais: Pompéia, filha de Pompeu; Cesária, filha de César; Cornélia, filha de Cornélius. A prova disto se encontra em diversas inscrições encontradas em fundos de espelhos que foram levados para as sepulturas.

A arte tumular de Etrúria, presente nas mais de 70 casas-túmulo encontradas em Tarquínia, são comprovação de que os etruscos acreditavam numa vida pós-mortem como a vida propriamente dita. Tanto que decoravam seus túmulos como já faziam os egípcios. Esta ideia de uma vida onde a dança, o prazer da música, da bebida, da nudez, da alegria estampada nas faces, também fazia parte do outro lado da nossa existência.

O que há de notável na arte tumular dessa sociedade, é que as mulheres etruscas foram figuras sociais presentes em todos os eventos da vida quotidiana, ao contrário do que se passou em Roma ou na Grécia, sociedades cuja a existência feminina esteve circunscrita ao domínio masculino e cuja voz pouco ou nada nos foi transmitida.

etruria casal

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História do meu Tio sem Orelha

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(a) Mara Cristan 

 

História do Meu Tio Sem Orelha

O meu primeiro causo, por Mara Cristan (a)

Limeira era uma cidade engraçada.

Tinha 16 mil habitantes, uma igreja matriz, uma estação de trem pegada à estação rodoviária, um colégio de freiras, o mercado municipal (que era o shopping center da época), o salão de beleza da minha mãe e o puteiro, duas quadras atrás da nossa casa: o salão de beleza.

Meu tio Angelim – solteirão que sobrou dos casamentos tardios da roça – não tinha uma orelha. Morava com uns parentes, mudando sempre que a coisa apertava. Pobre? Sem dúvida! Mambembe e despossuído.

Tinha duas camisas, dois pares de calças…ceroulas (era discreto ao lavá-las?) ou não teria?Meias furadas e desbotadas no varal? Tinha! Mala de papelão? Aí tinha! Vinha sempre vazia e voltava como vinha. Sapatos gastos e um chapéu furado, cheirando a suor de velho.

No alpendre da casa havia um murinho, onde a minha cadelinha – a “Briguite” , não a Bardôt– aprontava das suas…era a coitada a campainha da casa. Casa-Salão-de-Beleza vizinha do puteiro….daí que a cachorrinha vivia latindo. E o tio, apreciando as putas.

O tio tinha um sorriso de cachorro no cio diante do talho, olhava cobiçando as carnes que iam desfilando.

Do puteiro costumavam vir as moças, já macacas velhas do mercado, ao shopping de então. Vinha lá a Soninha Jamanta, mulher farta à bruta. Corpo da Vênus de Wilendorf ou do Abapuru?

tio angelim 2

E o tio , o caipirão sem orelha, com a cobiça de cachorro em frente a TV de virar os frangos, surdamente dizia: “ – Quanta carrrrne!”

Tio Angelim morreu aos 86 anos, num asilo de velhos em Barrinha-SP. Da última imagem dele, disseram que estava feliz, sentado num banco de praça, vendo as moças passarem.

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Introdução aos Dados para Compreender a “Onda Grisalha”

Terra Portugal

2ª Encontro: Lazer e Bem-estar

Perspectivas para compreender o envelhecimento

Ao longo da história foram concebidas diferentes visões sobre o processo de envelhecimento, assim como ainda coexistem outras percepções sobre a velhice em culturas distintas.

Entretanto, a ideia de que a vida se desencadeia num ritmo decrescente foi acolhida pelo pensamento popular – das sociedades ocidentais – como sinónimo de que velhice equivale à inutilidade e mesmo de que é um processo pelo qual não passaremos.

Temos evidências de que, com o passar dos anos, o vigor, a força física e a rapidez dos reflexos decaem. Além disso, pessoas em uma idade avançada possuem uma probabilidade maior de ficarem doentes e levam mais tempo para se recuperar.

Todavia, mesmo que isto seja um dado da realidade, não é necessariamente verdadeiro que as pessoas se tornem incapazes, significando apenas uma possível queda em seu rendimento, em determinadas esferas de ação. A avaliar pelos últimos censos, 17,4% das pessoas entre os 15 e os 64 anos têm dificuldade em fazer pelo menos uma destas coisas: ver, mesmo com óculos; ouvir, mesmo com prótese auditiva; andar, descer ou subir degraus; sentar-se ou levantar-se, dobrar-se, esticar-se, levantar ou transportar, agarrar, segurar ou rodar algo; memorizar ou concentrar-se; comunicar, compreender ou fazer-se compreender.

E, tudo se agrava com a idade.  É fato que são situações que ultrapassam os 50% entre os maiores de 70 anos, mas isto não é igual a dizer que a partir de determinada altura da vida somos incapazes e improdutivos. Devemos tomar a velhice não como sinónimo de incapacidade, porque os mais jovens também podem sê-lo, mas como um período no qual podemos ser bem-sucedidos.

Estudos da demográfica mundial revelam que a onda dos “cabelos grisalhos” é praticamente um “tsunami”. No mundo, o número absoluto de pessoas de 65 anos está se multiplicando por quatro entre 1955 e 2025, e sua proporção em relação à população total dobrará (Correio da UNESCO, 03-1999).

ollho velho

Alguns Dados sobre o envelhecimento no mundo, em Portugal e no concelho de Mafra:

a) Mapa da média das idades por país:

 

mapa media idade mundo

 

b) Previsão do índice de envelhecimento da população portuguesa entre 1990-2020:

mapa previsao

 

c) Curva do envelhecimento da população de Portugal (1961-2003)

mapa velhice portugal

 

Dados sobre o Concelho de Mafra-Portugal

mapa mafra

  1. População por grandes grupos etários:

 

População Total 76.685 habitantes
População situada na faixa de 65+ 35.739 habitantes

 

b) Índice de envelhecimento do concelho de Mafra: expressa a relação entre população jovem e população idosas. Habitualmente definido como o quociente entre número de pessoas com idade igual ou superior aos 65 anos e pessoas em idades compreendidas entre os 0 e os 14 anos. Em geral, resultante da relação em percentagem (por 100 pessoas com idade entre os 0 e os 14 anos).

1960 1981 2001 2011
31% 50% 203,4% 185,8%

mapa gerações

c) Composição por sexo da população do concelho de Mafra:

 

tabela

Homens Mulheres
37.317 habitantes do sexo masculino, dos quais 21.980 situam-se entre os 65 anos de díade ou + 39.368 habitantes do sexo feminino, dos quais 17.759 situam-se entre os 65 anos de idade ou +

 d) Pensões de Segurança Social: total, de invalidez, de sobrevivência e de velhice:

 

1990 2013
10.257 habitantes 16.487 habitantes

justiça1

Bibliografia Utilizada:

Base de Dados Portugal Contemporâneo. Fundação Francisco Manuel dos Santos.

http://www.pordata.pt/Municipios/Indice+de+envelhecimento-458

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Primeiro Encontro

Viver é tão importante quanto criar.

Cabo Carvoeiro - Foto by Mara Cristan

Cabo Carvoeiro – Foto by Mara Cristan

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Conteúdos para a disciplina: “Lazer e Bem-estar”

olho do mundo

Universidade Sénior de Mafra – ICM – USEMA

Proposta de conteúdos para a disciplina: “Lazer e Bem-estar” ©2014

Docente: Professora Doutora Mara Lúcia Cristan

  • Objetivos:

Em estudo recente, publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos (2013), se apresenta uma análise pormenorizada dos usos do tempo livre pela população portuguesa situada na faixa etária entre os 50 e 75 ou mais anos, enfatizando, que com o passar do tempo e a reforma, as pessoas vão abandonando círculos sociais e se aproximando mais da televisão. Esta situação, que marca uma tendência para o isolamento, se agrava com a viuvez, o esfacelamento de laços familiares e das relações que se estabeleceram no ambiente de trabalho.

Compreendendo um conjunto de ações recomendados pela OCDE (2012) e a diversidade encontrada entre os países que compõem a comunidade, é, entretanto, fato comum que a educação ao longo da vida, se encontre como uma das principais estratégias de socialização incorporada pelo Estado e diversas instituições, para uma população que vem crescendo e continuará crescendo, dado o aumento da expectativa de vida.

O propósito dos conteúdos trabalhados nesta disciplina buscam apoiar a subversão ao isolamento, através de atividades que promovam alternativas de ocupação dos tempos livres a partir de experiências lúdicas que garantam informação sobre hábitos de saúde e atividades de lazer.

  • Conteúdo do Programa de Aulas e Dinâmicas: © 2014, Mara Lúcia Cristan.

Módulo 1- A velhice e o processo biológico de envelhecimento: como envelhecemos?

Subtemas: postura, epiderme e alimentação.

Atividades para o Módulo 1: aulas; dinâmicas de grupo; oficina de receitas caseiras; palestra proferida pela Enfermeira Eugénia Coelho, subordinada ao tema ”Diabetes e Hipertensão”.

Módulo 2- A interação intergeracional: o que sabemos para transmitir aos mais

Subtemas: o brincar e a realidade; memórias do brinquedo e da infância.

Atividade para o Módulo 2: oficina de brinquedos a partir de reutilização de materiais.

Módulo 3: Jogos tradicionais.

Subtemas: construção de um repertório de brincadeiras e jogos.

Atividade para o Módulo 2: oficina de realização: venha jogar connosco.

Módulo 4: Atividades lúdicas no meio aquático.

Subtemas: noções básicas em natação; brincadeiras de Verão.

Módulo 5: Viajar como lugar de redescobertas.

Atividades para o Módulo 5: palestra proferida pelo Prof. Doutor Lomba-Viana, subordinada ao tema “Os benefícios do consumo moderado de vinho tinto e a vinha, o vinho e as confrarias báquicas”; visita de estudo e de lazer à Quinta do Sanguinhal, com prova de vinhos. Almoço de confraternização.

  • Calendário e local de aulas:

A desenvolver junto à direção da ICM-USEMA.

  • Avaliação: participação no Grupo do Facebook, que será criado especificamente para os alunos da disciplina. Não-absentismo e comprometimento com o trabalho.

 

  • Bibliografia utilizada:

Cabral, Manuel Villaverde. Processos de Envelhecimento em Portugal: usos do tempo, redes sociais e condições de vida. Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2013.

 

 

Mafra, 01 de Setembro de 2014.

Mara Lúcia Cristan (Profa. Doutora)

(Socióloga e Professora Universitária)

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Primeira Síntese

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Primeira Síntese

 

Os historiadores mais modernos, criaram uma cilada: dizendo que não foi Portugal a se beneficiar da escravidão.

Que muitos dos traficantes de africanos eram brasileiros, mulatos que viviam à sobra das casas grandes…já sabemos. Mestiços que usaram o conhecimento deixado por seus ancestrais sobre a África e fizeram dele forma de ganho e exploração do outro. Aos poucos, de traficantes passaram à “homens bons”, ganharam autonomia, criaram bases num e noutro continente, ao mesmo tempo em que alcançavam ascensão social e status político.

A ideia de que um “Pacto Colonial” traçado entre metrópole (Portugal), Brasil e África, onde o primeiro sorvia todo o lucro obtido a partir das relações que se compunham entre um fornecedor de escravos e um doador de matérias-primas, foi quebrada.

Entretanto , parece haver uma lacuna na explicação de quem se apropriou da maior fatia do bolo. Se vingou a ideia da administração pluricontinental, onde o poder era distribuído de forma difusa e de que nunca houve um centro que concentrasse poder…como explicar as desigualdades de desenvolvimento entre as três partes do conjunto: África, Brasil e Portugal?

A pergunta é, de todo, ambiciosa.

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Comentários acerca da introdução de Heike Berhend & Ute Luig: Spirit Possession Modernity & Power in Africa. Oxford, University of Winisconsin Press, 2000.

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Comentários acerca da introdução de Heike Berhend & Ute Luig: Spirit Possession Modernity & Power in Africa. Oxford, University of Winisconsin Press, 2000.

© Mara L. Cristan

Como parte de um trabalho mais vasto: Espírito, Posse, Modernidade e Poder na África, esta coletânea de artigos procura identificar as transformações que os espíritos de possessão estão sofrendo diante da sociedade de economia globalizada. Ou seja, os espíritos de incorporação desterritorializam-se fazendo surgir um novo “panteão” de espíritos que advém de outros tempos históricos (Hitler e Mussolini, por exemplo) ou tem matrizes no cinema ou em dinastias dantes desconhecidas (Bruce Lee, ex.). Bem como, são incorporados novos tipos não pertencentes aos territórios onde estes espíritos de possessão passam a se mostrar, como playboys, prostitutas, ou ainda o aparecimento de espíritos africanos como os do candomblé que se manifestam na Alemanha.

# Tais entidades que vem de outros pontos do planeta, quando incorporadas, falam em outras línguas, improvisam sotaques e se comportam fora dos padrões do convívio comum nos cultos onde são manifestos #

1-      Complexidade e proliferação dos espíritos de Possessão:

Na África, o encontro entre colonizadores e colonizados promoveu a aparição de um certo hibridismo, onde alguns espíritos de possessão são responsáveis pela divulgação de um espírito crítico ante as formas de capitalismo que vão sendo instaladas sobre os costumes ditados pela tradição.

A ambivalência e as contradições que baseiam os processos de modernização e da globalização mundial, abrem-se nas arenas dos cultos de possessão variações de acordo com os contextos em que elas surgem. Portanto, não há que se espantar quando também estes espíritos se “internacionalizam”.

A antropologia, desde Evans Pritchard vem explicando os espíritos de possessão sob diferentes pontos de vista: Pritchard interpretou estes espíritos como de refração da realidade social (1956); John Beatti chamou-os de qualidades abstratas (1976); I.M.Lewis conclamou a ideia de que as filosofias empregues pela bruxaria eram resultantes de uma teoria que tomava como cerne as tensões sociais e as relações de poder (1971); Andreas Zempleni referencia os espíritos de possessão como parte uma história psicanalítica da família (1977), e Michel Lamberk refere que os espíritos são produzidos pela imaginação, que partem de uma construção ficcional mas não simplesmente fictícia (1996).

A variedade de interpretações de como se realizam os espíritos de possessão se ligam à cura de doenças, aos conflitos sociais, aos jogos de poder e são uma evidencia de que estes espíritos não refletem apenas a divisão de trabalho nas sociedades. Os espíritos de possessão são, ao mesmo tempo, mais e menos de cura, arte, entretenimento, crítica social, fruto de certa especialização profissional, moda e etnografia (Kramer, 1987). Estes espíritos são fruto de uma interação de reciprocidade entre o médium, uma interpretação participada publicamente, tanto do que é conhecido como do que já era esquecido, todos estes atributos são exibidos através dos espíritos de possessão.

Em adição, os espíritos nunca são compreendidos isoladamente. Senão dentro dos princípios de sincronia (tudo o que acontece ao mesmo tempo) e de diacronia (de acordo com sua evolução histórica, originária) e os discursos e práticas concernentes a eles. Relevando a interdependência das características pontadas, assim como da interdependência dos vários cultos religiosos no espaço e no tempo em que se desenvolvem práticas que tomam de empréstimo.

# Creio que um bom exemplo, seja o da composição que a umbanda vem recebendo nos diferentes países em que ela está sendo instalada #

Os autores desta introdução, citam a competição que hoje existe entre a islamização da África e os cultos tradicionais, sendo que os “novos” cultos islâmicos toleram os espíritos de possessão. Um caso pontual é os Nya cultuados no Mali, onde elementos de uma iniciação sob sociedades secretas organizam os médiuns e que a atuação destas sociedades interferem na formação de novas gerações hostis ao muçulmanismo e aos políticos que a ele se converteram, com consequências nítidas para os conflitos políticos travados ao nível do Estado.

Entre as igrejas cristãs e os cultos dos espíritos de possessão há uma longa e intensa competição, entretanto também existe uma tradição de empréstimos recíprocos. Sincretismos. De igual modo, outras igrejas independentes utilizam os cultos de possessão, assim como fazem valer toda uma simbologia utilizada pelo cristianismo, incluindo a Bíblia, sua divinização e outros símbolos que estão incluídos na prática destas religiões.

Os capítulos que compõem o livro são férteis em apresentar exemplos de como estes fenómenos acontecem por toda parte de África, como os mencionados entre os Basangu da Zâmbia, ou da prática de apropriação e indigenização do cristianismo no Norte de Uganda, onde se tomam a santificação de espíritos, como a “fabricação” de mártires à imagem dos santos da igreja católica ou figuras bíblicas que tem significância em matanças e guerras desde os finais dos anos 80.

Outro fenómeno reconhecido como fruto dos processos de globalização, são relacionados á imigrações, adoção de cultos a partir de outras matrizes culturais ou mesmo a renovação de práticas de culto a partir de fusões, de linhas de inclusão e exclusão. O fato de que as migrações implicam em abandono de territórios – na maioria das vezes sob alguma forma de coerção e coação – faz com que novas figuras de posse sejam adotadas, que outras sejam deixadas de lado ou recebam menos ênfase nos cultos, modificando as influências que recebem de uma comunidade ou na determinação que têm sobre elas, neste âmbito existe uma complexa teia de relações que sustenta ou não a existência de certos espíritos a serem cultuados.

Os frequentes desenhos e redefinições dos limites destes cultos, segundo Ute Luigi, assumem traços de competição e incremento de poder, incluindo translocação de panteões por “afinidade”, caso que é demostrado por Krings no capítulo 4 do livro, quando aborda o caso de espíritos europeus dentro do panteão Bori, onde a ordem de oposição estabelece uma diferenciação de cores como categorias em disputa. Neste capítulo, Krings ilustra como os Turowa estabelecem um complexo jogo de oposições na Europa e sua adoção como estilo de vida europeu…o exemplo, embora não esteja bem claro, a mim, parece muito semelhante com o que acontece com a umbanda quando aceite por alemães, suíços e outros povos europeus.

No capítulo 3, Adeline Masquelier aborda o quão crítico podem ser os novos espíritos de possessão em relação ao consumismo. Citando para o efeito o aparecimento dos espíritos Dodo que se colocam numa tradição contrária ao capitalismo, cujos médiuns desdenham os confortos propiciados pelos bens disponibilizados no mercado. Também no Norte de Uganda, a brutal guerra civil que lá eclodiu levou á buscar na bruxaria e na feitiçaria os porquês de sua ocorrência, confrontando diferentes cultos onde uns se opunham aos valores individualistas e de acomodação que o capitalismo propunha, fazendo disto a base das acusações de feitiçaria.

2-Espíritos de Possessão e Gênero:

A relação estabelecida entre espíritos de possessão e a formação das categorias de gênero, compõem um importante objeto na discussão dos cultos de possessão. Sendo que a maioria dos corpos alvo da possessão são femininos. A análise de antropólogos e feministas vem confirmando que esta posição da mulher como sujeito da possessão permite uma posição de empoderamento e resistência das mulheres, outrora marginalizadas por certos grupos. Isto é promovido por uma desnaturalização do papel hegemónico que os homens vinham desempenhando dentro dos cultos.

Entretanto em alguns cultos, como é o caso do Candomblé no Brasil, as entidades incorporadas durante o transe ainda mantém características perfilhadas como típicas do masculino e do feminino. Assim, doçura, fertilidade, emotividade são sentimentos agregados às figuras femininas em transe. Um exemplo pode ser encontrado na distribuição dos cargos: trabalhos como os dedicados à preparação dos alimentos, do cuidado com o altar, com a limpeza, com o ensino dos primeiros passos…assim como a maternidade, a fertilidade, a sensualidade e são qualidades invocadas aos orixás tidos como femininos.

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Jean-Paul Colleyn, estudando o culto dos Nya no Mali, descortina a possessão através de uma figura espiritual andrógina, que a depender dos contextos oscila entre masculino e feminino. Há ainda ligações entre a relação de género e as mediações entre esferas da espiritualidade, de transfiguração da sexualidade de médiuns e de recombinações de género, em que sobressaem figuras como de travestis, prostitutas, que podem “encenar” comédias, paródias em diálogo.

3-Espíritos de possessão, etnografia performativa e história:

Tentando perceber os cultos de possessão como parte de uma cultura a ser descrita em seu próprio contexto de interação social, a possessão é compreendida como parte do universo simbólico e da cosmologia de que o possuído está inserido, daí que não é possível entender os ritos e cultos de possessão de forma isolada ou como pertencendo a uma coleção de objetos exteriores a todo o processo, dado que ele incluí tanto a esfera psicológica como a compreensão de tempo histórico, visão de mundo, cosmologia que os indivíduos guardam. Os antropólogos, sob este ponto de vista, devem observar a relação entre saberes criados pelos próprios antropólogos e aqueles das pessoas com as quais trabalham, ainda do ponto de vista da religião, o que se espera da antropologia é que ela capture a experiencia vivida e não apenas a morfologia do que se vê em campo.

Todavia, as explicações sobre a possessão também podem refletir a estrutura social, os conflitos inerentes a esta sociedade e a oposição campo cidade. Sendo o reflexo das relações de dominação e hierarquia também objeto das experiencias de possessão, mas que devem ser observadas não só como mimetismos, mas através do discurso que o dominador constrói. Noutra relação com a história, os cultos de possessão podem rememorar a história de opressão de um povo, assim como fazem reviver seus mitos fundadores, a possessão – por exemplo, do espírito de Zumbi – recoloca a questão da escravidão, como um ritual biográfico. Esta experiencia ajuda a reconstruir identidades locais.

Susan kenyons explora ainda a flexibilidade com que os papéis de género podem ser assumidos por um mesmo personagem que encarna diversos espíritos de homens, mulheres ou outros, demostrando que se podem coabitar espíritos de possessão sob um mesmo indivíduo. Já sob outra perspetiva, a possessão de uma mulher grávida de um marido que já está morto, pode fazer com que ela manifeste qualidades de valentia atribuídas ao guerreiro morto e pai da criança. Deslocando as qualidades de género atribuídas a um homem ao corpo de uma mulher.

Cabe ainda mencionar que as relações entre história e rituais de possessão e seus cultos permitem redesenhar os processos de casamentos interculturais entre linhagens africanas ancestrais e colonizadores europeus, sendo que o material é riquíssimo para quem pretende analisar os processos diacrónicos de formação de novas identidades.

Por trás da nova interpretação que se constrói para analisar os espíritos de possessão e seus cultos, de acordo com os novos contextos impostos pelas sociedades globalizadas e, mesmo após o confronto iniciado pela colonização iniciada a partir do século XV e XVI com intensificação de relações comerciais através do Mar Mediterrâneo e depois com a colonização que começa pela costa africana e vai se aprofundando continente adentro, existe atualmente uma profusão de entidades que foram transladadas de culturas diferentes, de países com línguas e valores culturais distintos, em que cujo confronto de crenças, modos de vida e modelos económicos resultou na alteração dinâmica das identidades que se sobrepõem aos cultos de possessão.

Durante os transes, os possuídos podem predizer sob forma de oráculos o resultado de conflitos, pode dar conselhos, responder a súplicas e mediar conflitos. Os altares em que estes cultos acontecem podem ser transladados através de migrações ou mesmo porque o estilo de vida de populações seminômades o exigem, de modo que os espíritos que possuem os “cavalos” durante o processo de transe transmutam a depender dos novos contextos e dos confrontos em que se instalam.

Um exemplo clássico é a disputa que existe entre os cristianismos (católicos de diferentes matizes, pentecostais, igrejas independentes) e a tradição existente e territorialmente reconhecida, num caso em que esta competição está plenamente instalada as possessões pertencem muitas vezes a rituais de rebelião, onde são incentivados os comportamentos de transgressão de costumes, através da blasfémia, da zombaria, das simulações, da sátira e de condutas consideradas obscenas ante os olhos do colonizador ou de um forasteiro.

Sob certos aspetos, a possessão estabelece um elo entre o mundo dos vivos e mundo dos mortos e também sob as circunstâncias em que se dão as dinâmicas do sincretismo, podem surgir novos “personagens” , espíritos que se despregam de um contexto cultural determinado e reaparecem em outros cultos, o que é muito semelhante ao que acontece dentro do kardecismo, em que figuras de médicos que se supõe terem sido grandes cientistas em vidas anteriores reaparecem nas sessões de transe sob a conduta de terapeutas que promovem curas, cirurgias, etc.

As formas de transe nem sempre são as mesmas. Podem se valer de danças rituais, de posições em que o corpo se abra para receber um espírito, do uso de drogas ou substancias que conduzam ao transe e mesmo através de um sono profundo. Não há uma fórmula exclusiva de transe, mas há sempre uma relação que se faz entre uma outra dimensão espaço/temporal, e o uso de recursos adicionais como música, canções, orações exaustivamente repetidas, chamamentos, máscaras, adereços, alfaias religiosas, ou substâncias como álcool e outros tipos de psicotrópicos ou alucinogénios, etc.

Se pensarmos ainda em certos cultos veremos que há todo um corpo não só doutrinário, mas também de especialidades relacionados á preparação para o transe e a possessão. A pintura, as comidas, o uso correto por certos indivíduos dos instrumentos musicais, bem como a ordenação da gira, das palavras recitadas, dos cantos de ponto invocados, da preparação do altar, do respeito aos tabus e preceitos de purificação, as oferendas, o empenho dos participantes, todos estes aspetos estão ligados à possessão e tudo isto poderá se modificar a depender de fatores como os influenciados pelo contexto, inclusive económico.

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