Comida de Índio: em torno da Antropologia da Comida

KATZ, Esther. Alimentação indígena na América Latina: comida invisível, comida de pobres ou património culinário. Porto Alegra, Espaço Ameríndio, v. 3, n. 1, p. 25-41, jan./jun. 2009.

 

A autora se propões a “desenhar” a dieta de duas populações indígenas: uma no México, região mixteca no Estado de Oaxaca; outra na Amazónia brasileira, região do Rio Negro. O objetivo é analisar como as dietas indígenas são percebidas nestas duas regiões na perspectiva de fora e de dentro. A pesquisa foi realizada ao longo de dois anos.

O que comem os índios de Oaxaca: sobretudo tortillas feitas a partir de milho, feijões, alguma carne, vegetação nativa junto ao roçado de culturas como o café, cogumelos, flores, frutas, pimenta, “quelite” (folhas novas, brotos, raízes), insetos (formigas, lagartas, larvas de escaravelhos e vespas, gafanhotos, percevejos), pouca caça (esquilos, pássaros, tatus, coatis, etc.).

As diferenças sociais marcam as dietas, já que os mixtecas habitam as regiões de piores solos pois o espanhol colonizador ocupou as melhores terras, deixando aos habitantes originais as terras marginalizadas. Portanto, não só a agricultura de subsistência está sujeita às épocas secas e de chuvas, onde a produção é prejudicada o que impede de torna-la fonte se sustento autónomo das famílias. Outra influência determinante na possibilidade de aquisição de alimentos, se deve ao fato de que os mexicanos que emigraram para os EUA enviam remessas de dinheiro e isto provoca aumento de poder aquisitivo na compra de alimentos industrializados.

No caso da população ribeirinha analisada, a caracterização de sua composição: caboclos e nordestinos, e descendentes de índios que não se reconhecem como tal, que se mantém afastados do elemento indígena que vive na floresta. A consequência imediata reflete em suas dietas e os faz desconhecedores da alimentação e das técnicas de cocção destes últimos.

Apesar do prato típico do Estado do Pará ser nacionalmente conhecido como o “pato no tucupi ou tacacá”, prato de elaboração sofisticada a partir da mandioca e folhas da floresta e que está se tornando “comida de rua” nos centros urbanos. Assim como a popularização do açaí, que há 15 anos ainda não se conhecia, do peixe e da farinha de mandioca que também são consumidos pela população. O que comem os ribeirinhos é praticamente o que provém como comida industrializada trazidas pelas barcas de Manaus: frango congelado, charque, tomate, cebola, alho, limão, macarrão, pão de trigo, café e bebidas industrializadas.

O caxiri, cerveja produzida a partir da mandioca já é de fabrico reduzido, pois sendo proibido pelos religiosos, tornou a técnica de conhecimento escasso. Em substituição, a bebida consumida é a cerveja e a cachaça. Alguns alimentos locais são vendidos, mas em pequenos volumes, pois os índios da região (tukano, pira-tapuya, desâna, tuyuka, baré, baniwa) não tem tradição de comerciar o excedente de produção. Ainda assim circulam alimentos locais como: castanhas, farinha, pimenta pilada.

Nas roças indígenas se planta, além da mandioca cujo manejo é feito pelas mulheres, outros tubérculos, como cará, inhame, batata doce, e folhas como a taioba, ainda também se plantam macaxeira abacaxi, pimenta, caruru, pupunha, etc. O açúcar se obtém como frutose, vinda da cana-de-açucar que é chupada e frutas como ingá, caju, cupuaçu, abacaxi, que encontram algum comércio nas vilas ribeirinhas.

Em algumas aldeias, mas não em todas, são apreciadas as larvas, lagartas e cogumelos. A comida básica é um caldo apimentado de farinha de mandioca e peixe, que também é consumido assado, moqueado ou frito, mingau de banana, comido numa cuia que é passada de mão em mão na casa comunitária ou o chibé (água misturada com farinha de mandioca).

O preparo dos alimentos também sofreu largas modificações: enquanto a população ribeirinha usa fogão a gás, panelas de alumínio, panelas de pressão, pratos de plástico e vidro, além do liquidificador para o preparo dos sucos. Nas tribos ainda permanece o uso do pilão e do ralo para trituração de alimentos e fabrico tanto do beiju, quanto dos sucos e mingaus, dos fornos de barbacoa (fornos subterrâneos), de algumas panelas de barro, da cestaria.

A autora concluí seu texto, colocando uma divisão entre gastronomia, que são resultado de distinções sociais, e o património culinário, que se constituí a partir dos recursos naturais de dadas regiões e das complexas relações de exploração do meio-ambiente, da agricultura e da circulação dos bens alimentares.

 

 

 

 

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Sobre Mara Cristan

Socióloga e Docente Universitária
Esta entrada foi publicada em Educação e Sociedade em Rede, Processos Pedagógicos em E-Learning. ligação permanente.

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