História do meu Tio sem Orelha

tio angelim 1

(a) Mara Cristan 

 

História do Meu Tio Sem Orelha

O meu primeiro causo, por Mara Cristan (a)

Limeira era uma cidade engraçada.

Tinha 16 mil habitantes, uma igreja matriz, uma estação de trem pegada à estação rodoviária, um colégio de freiras, o mercado municipal (que era o shopping center da época), o salão de beleza da minha mãe e o puteiro, duas quadras atrás da nossa casa: o salão de beleza.

Meu tio Angelim – solteirão que sobrou dos casamentos tardios da roça – não tinha uma orelha. Morava com uns parentes, mudando sempre que a coisa apertava. Pobre? Sem dúvida! Mambembe e despossuído.

Tinha duas camisas, dois pares de calças…ceroulas (era discreto ao lavá-las?) ou não teria?Meias furadas e desbotadas no varal? Tinha! Mala de papelão? Aí tinha! Vinha sempre vazia e voltava como vinha. Sapatos gastos e um chapéu furado, cheirando a suor de velho.

No alpendre da casa havia um murinho, onde a minha cadelinha – a “Briguite” , não a Bardôt– aprontava das suas…era a coitada a campainha da casa. Casa-Salão-de-Beleza vizinha do puteiro….daí que a cachorrinha vivia latindo. E o tio, apreciando as putas.

O tio tinha um sorriso de cachorro no cio diante do talho, olhava cobiçando as carnes que iam desfilando.

Do puteiro costumavam vir as moças, já macacas velhas do mercado, ao shopping de então. Vinha lá a Soninha Jamanta, mulher farta à bruta. Corpo da Vênus de Wilendorf ou do Abapuru?

tio angelim 2

E o tio , o caipirão sem orelha, com a cobiça de cachorro em frente a TV de virar os frangos, surdamente dizia: “ – Quanta carrrrne!”

Tio Angelim morreu aos 86 anos, num asilo de velhos em Barrinha-SP. Da última imagem dele, disseram que estava feliz, sentado num banco de praça, vendo as moças passarem.

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Sobre Mara Cristan

Socióloga e Docente Universitária
Esta entrada foi publicada em Processos Pedagógicos em E-Learning. ligação permanente.

3 respostas a História do meu Tio sem Orelha

  1. Graça Cremon diz:

    bom começo! Conte-nos tudo…vamos lá!

  2. Rose Scodeler diz:

    Muito bem. Talento tem!
    beijo

  3. José Carlos Viana diz:

    Desde sempre, te disse que tens enorme talento e uma enorme facilidade na escrita. Já conhecia esta história, como seria natural, após onze anos de comum vivência,
    Contudo no presente texto, tiveste a sublime arte de o vestir com uma roupagem intelectualizada e cosmopolita, quiçá fazendo recordar alguns dos melhores escritos do Portugal contemporâneo…
    Parabéns. Mais uma vez eu o digo: “Vai em frente Mara” !
    Beijos,
    José Carlos de Lomba-Viana

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