Quem é Peter Fry

GU - Peter Fry

Quem é Peter Fry

© Mara Lucia Cristan (2013)

Antropólogo londrino, militante homossexual assumido, Peter Fry inicia sua vida académica como estudante de matemática na Universidade de Cambridge entre 1960-1963, aproximando seus estudos para a área de Antropologia onde foi aluno de Edmund Leach e tutoriado por Jack Goody[1] que o aconselhou a dar sequencia aos seus estudos no Departamento de Estudos Sociais da University College of Rhodesia and Nyasaland, regido pelo Professor Clyde Mitchel, Max Gluckman, Jaap van Velsen[2], Victor Turner Max Marwick, os dois primeiros pioneiros na área da antropologia urbana.

Mitchel, naquele momento, elaborava sua teoria e a sistemática das redes sociais, justamente para explicar situações africanas que não se encaixavam nos esquemas de parentesco. De Max Gluckman, Peter Fry recebe a influência da Escola de Manchester cujo contributo principal Peter reconhece como sendo o método de análise, a utilização das categorias de situação e de relações entrecruzadas. Esta visão da antropologia retira à ela o foco nos valores e normas sociais, deslocando o eixo analítico para as formas como os sujeitos negoceiam suas estratégias em situações específicas, no caso na negociação entre tradição e modernidade. Dos demais professores, recebe as lições sobre a colonização britânica na região da África Central sublinhando que se deveria prestar mais atenção no cotidiano das pessoas, que nos modelos ensinados no ensino universitário clássico.

Orientado por Mary Douglas em seu doutoramento, Peter Fry teve como tese o estudo da religião e política na Rodésia do Sul[3], onde buscou uma análise do significado político da religião tradicional Shona no contexto nacional e local , que na crítica que o próprio Fry formulou saiu-se muito aproximada da antropologia normativa, ao contrário do que esperava-se de quem gostaria de se inscrever mais proximamente da Escola de Manchester. A defesa da tese valeu-lhe um convite para permanecer como professor no departamento, o que não foi possível dado a radicalização dos confrontos políticos na Rodésia.

Transferindo-se para Moçambique, Fry também não encontrou por lá o clima intelectual que desejava, regressando à Inglaterra de onde partiu, como professor convidado para lecionar na Unicamp. No Departamento de Antropologia[4] desta recém-fundada universidade, Peter Fry foi responsável – ao lado de outros colegas – pela consolidação da pós-graduação orientando trabalhos em diferentes temáticas, também foi na Unicamp que nosso autor iniciou suas pesquisas tendo como tema o Candomblé e o homossexualismo. Na sua frequência aos terreiros de Campinas-SP, Peter Fry se depara com uma realidade completamente diversa em termos tanto dos adeptos – muitos deles brancos com perfil de classe média – como pela forma de se relacionarem entre si, muito mais pautadas pela negociação e pelo favor, do que pelas normas sociais escritas e anunciadas. Temos aí, o fermento para sua produção sobre raça e racialismo no Brasil, os frutos destes trabalhos foram compilados no livro: A Persistência da Raça: ensaios antropológicos sobre o Brasil e a África Austral. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2005.

Bibliografia:

Conversa sobre o Autor Peter Fry, Associação Brasileira de Antropologia, publicado em 29/10/2012. http://www.youtube.com/watch?v=G2XzJ5vjCCM

Fry, Peter. Memorial para concurso de professor adjunto. Rio de Janeiro, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1995.


[1] Sobre o percurso de Jack Goody veja o texto de Sobral, José Manuel. Jack Goody: notas bibliográficas. Revista Análise Social, nº 173, Lisboa, 2005. http://www.scielo.oces.mctes.pt/scielo.php?pid=S0003-25732005000100002&script=sci_arttext

[2] Que estudou o povo Tonga e se envolveu na luta anti-colonialista contra o racismo, este envolvimento com a luta armada lhe valeu a expulsão da Rodésia.

[3] Fry, Peter. Spirits of Protest: spirits mediunsand the articulation of consesus among the Zezuru of Southern Rhodesia (Zimbabwe). Cambridge, Cambridge University Press, 1976.

[4] Peter Fry foi também professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Coordenador do escritório da Ford Foundation-Brazil entre 1985-1988, tendo em paralelo uma vida repleta de atuações tanto na universidade como em diferentes organizações sociais.

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Sobre Mara Cristan

Socióloga e Docente Universitária
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